Avalanche de Ação

Falamos com Karina Oliani, a mais jovem brasileira a escalar o Monte Everest

Quem ela é

Formada em Medicina
Especialização no resgate em áreas remotas
Fundadora e presidente da ABMAR (Associação Brasileira de Medicina de Áreas Remotas)
Mais jovem brasileira a escalar o Monte Everest
Bicampeã brasileira de wakeboard e snowboard
Primeira sul-americana a escalar o Monte Everest por suas duas faces
Piloto de helicóptero
Vencedora do prêmio Melhor Hostess na Categoria Lifestyle do Festival Internacional de Televisão de São Paulo, pela série do canal Discovery Missão Extrema com Karina Oliani

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“Essa especialidade nasceu em 1982, nos Estados Unidos, onde foi reconhecida como especialidade médica. Começou com três médicos da Califórnia e, agora, é disseminada no mundo inteiro. Eu fui uma das pessoas que trouxe isso para o Brasil. A área engloba medicina aeroespacial, medicina de guerra, medicina hiperbárica, medicina de altitude, medicina polar, de deserto e outras. São medicinas realizadas em ambientes inóspitos do planeta. Por exemplo, eu fiz medicina em São Paulo, mas nunca aprendi o que era uma doença descompressiva [a formação de bolas de gás inerte no organismo, também conhecida como o “mal do mergulhador”], porque o único cenário no qual você vai tratar uma doença assim é num ambiente de mergulhadores. Então, se algum mergulhador chega no hospital com esse problema, provavelmente o médico não vai saber como tratá-lo. É uma medicina que trata de casos muito fora do ambiente comum.”

Em sua primeira aventura para escalar o Everest, Karina Oliani chegou atrasada. Acompanhada de seu parceiro no esporte, Pemba, a médica teve de ouvir dos locais que ajudam os montanhistas na subida, conhecidos como sherpas, que não conseguiria, nunca chegaria ao topo junto com todos. Acontece que a maior parte das equipes havia desembarcado na região entre o final de março e começo de abril. Karina chegou em maio. Pemba, que escalou oito vezes a montanha mais alta do mundo, estava tranquilo. “Eu conheço a Karina. Vai dar certo.”

Corta para o final da expedição e os himalaios estão organizando uma festa para os escaladores. Karina e Pemba são celebrados por terem feito o menor tempo de todas as equipes que estavam lá. “Não é uma questão de ser mulher ou não, mas do que a pessoa é feita”, disse Pemba.

Karina é feita de um bocado de determinação. Fora o Everest, ela acumula uma lista sem fim de aventuras, quase todas gravadas em séries de televisão que ela apresenta. Na lista de seus patrocinadores, estão Motorola, Puma, The North Face. Fora isso, dá palestras pelo Brasil.

Entre mergulhos com tubarões e travessias de lagos de lava, ela dedica seu tempo ao Dharma, instituto que fundou em 2015, ao lado do fotógrafo Andrei Polessi. A iniciativa nasceu depois de Karina conhecer Pemba e, ao lado dele, escalar o Everest pela primeira vez. Essa amizade deu origem a projetos para ajudar a comunidade sherpa do Nepal. Em 2015, depois do terremoto que devastou o país, veio a ideia de fazer um livro de fotos, com a ajuda de Polessi e, assim, angariar dinheiro para restaurar a região. O valor arrecadado foi usado para construir uma escola.

Hoje, o Dharma organiza projetos humanitários, de educação e de meio ambiente. São, por exemplo, missões para fornecer assistência médica em regiões inóspitas ou crowdfundings para levantar dinheiro para tratamentos, como a cirurgia que a tanzaniana Mohammad, de 15 anos, precisa urgentemente por conta de um problema no coração. O futuro do instituto, hoje, é o principal foco de Karina. É o que ela chama de seu próprio Everest.

Cinco perguntas para explicar o seu universo

1. O que fez você se interessar pela especialização de resgate em áreas remotas?

“Eu fiz medicina porque adorava ajudar os outros. Mas essa ideia do médico que passa a vida no hospital, numa sala cirúrgica nunca me atraiu. Eu sempre tive necessidade de estar em contato com a natureza.”

“Fui atrás de uma solução para unir essas duas paixões que tinha e descobri o que esses três médicos da Califórnia estavam fazendo. Resolvi procurar alguém no Brasil com essa especialidade. Eu queria acompanhar o dia de trabalho, para ver se me identificava. Comecei a procurar e descobri que não havia ninguém. Então, eu fui buscar na América Latina — quem sabe Argentina ou Chile não tem alguém na área. Não tinha. Eu fui a primeira médica da América Latina a tirar esse título de especialização em Medicina de Resgate em Áreas Remotas.

Quando encontrei esses médicos americanos, me inscrevi para o curso. É um curso que dura dois anos e nove meses e exige estágio de todos os tipos. Eu, por exemplo, fiz estágio na NASA, para entender a parte aeroespacial, fiz resgate aquático na Califórnia, fiquei com os himalaias no campo de base do Everest, fazendo medicina de montanha. Essa experiência em campo me fez apaixonar pela medicina de emergência mais ainda. É o que eu amo.”

2. Quais as emergências mais comuns entre os escaladores no Everest?

“Tem as chamadas frostbites, que são lesões por conta do congelamento. Então, os dedos dos pés podem congelar, a ponta do nariz. Fora elas, tem a edema pulmonar, que é quando a pessoa se afoga no líquido dos próprios pulmões. Também tem a snow blindness, que é a cegueira que acontece quando a córnea se queima com o reflexo da neve. Tem bastante pneumonia também. E traumas, quando a pessoa cai ou se machuca.”

3. Como foi da medicina para a escalada do Everest?

“Eu trabalhei por quatro meses na base da montanha, como médica contratada. Só que eu olhava para os escaladores e me dava uma vontade absurda de escalar. Eu não podia, porque não tinha pago a permissão [para escalar] e estava contratada.”

4. Saber de todos as emergências que os escaladores enfrentam não te desanimou?

“Não, pelo contrário. Eu sempre fui muito atraída por coisas difíceis. Eu só gosto de um desafio quando ele é grande. Eu sabia que era uma montanha enorme e perigosa — quando trabalhei lá, houveram 11 mortes. Mas isso só foi aumentando a minha vontade.”

5. Como se monta uma expedição para subir o Everest?

“Como eu já tinha estado com escaladores no Nepal, já sabia o que precisava. O que faltava era montar um projeto e achar financiamento. Como você pode imaginar, eu enfrentei algumas dificuldades. Sou mulher, tenho 1,67m de altura, loirinha, porte físico pequeno. Então, quando as marcas recebiam meu projeto olhavam e ficavam ‘imagina que essa menina vai chegar. Se eu vou pagar para a minha marca chegar no topo do mundo, não vai ser com ela.’ Escutei muito comentário ruim, até gente falando que faltava louça para eu lavar. Levei três anos até, finalmente, conseguir financiar a expedição.

Foi bem difícil, mas isso me ajudou. Porque, lá no Everest, eu passei por muitos momentos em que sofri mesmo. Tem horas que seu pé está congelando, tem horas que o dedo da mão está congelando. Às vezes, o vento está tão forte que você entra em hipotermia, você sente uma falta absurda de ar. Sem falar que o frio é extremo, coisa de 40ºC negativos. Nesses momentos difíceis, eu lembrava do quanto havia sido duro chegar lá. Então, em vez de querer descer, entrar na barraca, eu me lembrava do cara falando para eu lavar louça, do preconceito, de todos os nãos que tomei, de quem duvidou.”

#3 Coisas sobre sua profissão
Que a gente, provavelmente, não sabia

Foco no que eu posso fazer

— Quando vou para missões em lugares mais remotos, seja na África ou aqui no Brasil, as pessoas sempre me perguntam: “você não fica com o coração partido quando vê pessoas vivendo em condições difíceis?”. O que eu aprendi, e a resposta que dou quando me fazem essa pergunta, é que a gente sempre vai atender muito menos pessoas do que gostaria. Quando organizei uma missão de médicos na Etiópia, por exemplo. O país inteiro precisa de atendimento médico. Nós ajudamos duas mil pessoas. Mesma coisa quando fui à Tanzânia. Havia 5 mil pessoas precisando de atendimento, mas a equipe conseguiu atender 500 pessoas. O importante é focar em como eu consigo ajudar, porque, no final, é isso: cada um fazendo a sua parte para alcançar um resultado maior.”

Devagar e caro

— Escalar uma montanha não é tão rápido como pode parecer. E é um esporte bem caro. Em geral, uma expedição para escalar altas montanhas (acima de 8 mil metros a partir do nível do mar) dura entre um e dois meses, no mínimo. Isso porque você precisa aclimatar o corpo ao ambiente, que é bem mais hostil do que a gente está acostumada. Para dar uma ideia, a temperatura pode bater -50 ºC e os ventos alcançam uma velocidade que vai de 100 a 120 km/hora. E, por causa desse clima hostil, você precisa de equipamentos top de linha. Tudo tem que ser muito bom. A barraca que suporta essa velocidade de vento custa USD 3 mil. A bota, que tem de ser a mais quente para aguentar a temperatura, custa USD 1,5 mil. Em geral, uma expedição para o Everest custa USD 60 mil.

Barreira cultural é barreira mesmo

— Pode não parecer, mas interpretar culturas diferentes é um desafio. Ainda mais porque eu viajo em grupo (dois cinegrafistas, um piloto de drone e um responsável pelo áudio). Todo mundo entende uma coisa de sua própria maneira. Uma vez, estávamos no Havaí, e precisávamos da ajuda de um local para gravar uma cena. Ele teve uma reação que deixou todo mundo confuso. O cinegrafista achou que ele tinha sido mal-educado, outro achou que ele estava com má vontade de ajudar. Eu achei que o cara só precisava de mais tempo para se organizar e fazer o que a gente tinha pedido. Dito e feito: conseguimos nos entender e era isso mesmo que ele queria dizer. A gente precisa de muita interpretação e empatia para conseguir se colocar no lugar de alguém com uma cultura diferente da nossa.

Por fim, me conte uma curiosidade
(sobre uma de suas aventuras)

“Estive em aproximadamente 110 países e ter contato com tantas pessoas diferentes me fez ter mais resiliência, respeito e tolerância com as situações. Em dezembro do ano passado, eu fui a primeira pessoa do mundo a cruzar o maior lago de lava do planeta, que fica no vulcão Erta Ale, na Etiópia. Quando fui convidar amigos e especialistas da área para me ajudar na travessia, vários riram de mim, dizendo que isso não havia sido feito porque era impossível. Eu achava justamente o contrário: que era impossível porque não havia sido feito.

Depois de correr atrás de muita gente, eu encontrei o Frederick, um canadense que comprou a ideia. Fomos juntos à Etiópia. Para chegar até o vulcão, passamos por muitas tribos locais, todas extremamente machistas. Numa delas, especificamente, nós tínhamos de entrar para pegar uma permissão para atravessar o lago de lava. Quando chegamos lá, eu iniciei a conversa com o chefe da tribo, mas ele nem olhou na minha cara. Ele só olhava para o Frederick. Foi quando questionou qual de nós iria fazer a travessia e o Frederick apontou para mim. Só aí, ele me olhou.

Quando consegui atravessar e voltamos à tribo, o chefe me deu um aperto de mão e me parabenizou na língua dele, olhando para mim. Olha só, aquela comunidade tem uma cultura diferente. Se, na cultura dele, ele não pode falar com mulher, eu não posso bater de frente porque sou estrangeira ali. Se eu tivesse ficado irritada durante a ida, quando ele me ignorou, não teria conquistado o respeito dele. Aprendi que não posso bater de frente com comportamentos que não agradam, porque sou eu estrangeira, preciso tentar entender a cultura da outra pessoa e me adaptar a ela.”

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